A dança do medo



por José Leite Netto



Precipitei-me na afetividade para com os outros e só levei porrada. Estamos, talvez, na era de Nietzsche, a era do Super-homem? Frios estamos e caminhamos em labirintos, sobrevivemos à idade das sombras, superamos a guilhotina crudelíssima do tempo fabricando o “homem de laboratório”. Entretanto ainda nos resta o racismo e tudo aquilo que compreendíamos por afetividade, para nos fazermos solidários, foi-se ao degelo na velocidade da busca de algo que se nos escorreu pelos dedos: somos o que somos e nosso alterego esqueceu-se do mais fraco.

Encaremo-nos nos olhos. Somos seres concluídos? Diria um cientista que, na escala da evolução, sim. Mas se nos compararmos com uma rã? Sim, somos muitos e muito mais que simples rãs de laboratório. Isto eu, um leigo, digo, não sei se a ciência ou um cientista diria o mesmo. Não sei se aquele que finge dirigir uma sociedade diria o mesmo (não diria no palanque) porque necessita do voto do analfabeto.

Encararam-se. Então, ao contrário do que foi dito, chegaram a conclusão de que somos filhos do medo. Dançamos a dança do medo. “Cheiramos flores de medo”, disse Drummond. Certo é que estou com os realistas que veem nos seres apenas aquilo que eles representam. E não me deixo embriagar pela estúpida infâmia em afirmar mentiras porque, em verdade, tudo nesta Vida esta bom enquanto tudo caminha ao pé da Cova. E escuto por todos os lados enquanto a chuva cai: “O que fazer com a violência desenfreada e com as poucas políticas públicas do país?” Escuto essa frase feito um tambor em meus ouvidos em ritmo desordenado. Eis a tua tão sonhada sociedade Pós-moderna. Eis que tua esmola dada a um enfermo representa a tua “salvação”. Eis que nossos filhos estão crucificados em cada esquina, morrendo de  excessivas drogas. Eis a tua gama de corruptos políticos aqui outros milhares ali... E mesmo assim, tu ligas a TV e te contentas em ver, no entreter dum fim de semana, um piegas sensacionalista a jogar dinheiro ou uma turma “Big Brother” que nada fazem a não ser promover intrigas entre si.  Mas prefiro reler Dostoievski a assisti-los e quando os assisto tento não encontrar em suas personas uma resposta menos fedorenta para a psique humana, a fim de não os ver no futuro, feito “certas velhinhas que andam rondando enterros preferindo certos cadáveres a outros”. Acharam estranha a comparação?...

Compreendo que em toda e qualquer época da humanidade nunca foi fácil garantirmos um lugar ao sol. Mas, antes que eu me esqueça, creio que nasci postumamente.

Antônio Sales O inesquecível fundador da Padaria Espiritual




 
“Na sala, uma moça esguia
recorta papeis de cor,
fazendo uma ninharia;
dorme um cão no corredor.
e embaixo um nédio gatinho
Olha para o passarinho
como quem diz: - Si eu te apanho!...”

 (Antônio Sales)


Por josé leite netto


Poeta, dramaturgo, jornalista, cearense. Antônio Sales nasceu na então povoação praieira de Parazinho, hoje Paracuru. Em 1880 já participava com seus escritos em alguns periódicos da capital cearense como “A Avenida”, “A Quinzena”, “O Domingo”, entre outros. Sem sombra de dúvidas, Antônio Sales, mais tarde, se tornaria um dos maiores nomes da literatura brasileira. Só para não deixar de citar um de seus confrades da época, Machado de Assis, o autor da perdurável obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, etc. Ainda moço Sales desfrutara do prestígio de freqüentar a alta intelectualidade cearense, como por exemplo, O Clube Literário, que segundo o professor Sânzio de Azevedo, em nota sobre os Grêmios Literários do Ceará, afirma que o poeta por esses tempos “mal se iniciará na literatura”.

De família humilde, Sales chegara a Fortaleza nos idos de 1884 com apenas 16 anos, na época garantiu seu sustento como caixeiro viajante de casas comerciais, às quais lhes suprimiam as poucas horas ao lazer da leitura, fazendo-se, com muito esforço, autodidata. A poesia de Sales cedo surgiu com “Versos Diversos” (1888) e “Trovas do Norte” (1891). Em 30 de maio de 1892, no Café Java, de Mané Coco, na Praça do Ferreira, Antônio Sales idealiza a Padaria Espiritual que se destacou por sua irreverência postulando a Semana de Arte Moderna de 1922. Curiosamente cada Padeiro se alto denominavam com os respectivos pseudônimos ou “nome guerra”, como por exemplo: Antônio Sales (“Moacir Jurema), Adolfo Caminha (Félix Guanabariano), Rodolfo Teófilo (Marcos Serrano), etc. Era a Padaria Espiritual na sua primeira fase com direito a deboches e gargalhadas que mais tarde, no século XX ganharia, a cidade de Fortaleza o epíteto de “Ceará Moleque” com direito a vaia ao sol e um certo Bode Ioiô que segundo contam era bom bebedor de cachaça e apreciador de boa poesia, além de ter sido eleito vereador desta mesma cidade. Dentre os intelectuais que compunham a primeira fase da Padaria estavam: “Ulisses Bezerra, Sabino Batista, Tibúrcio de Farias, Álvaro Martins, Temístocles Machado. Lopes Filho e Antônio Sales”. Já na segunda fase da Padaria Espiritual, Os Padeiros, voltavam suas idéias às questões políticas e sociais sacudindo o âmago dos literatos nos primeiros anos do golpe da Republica, ou melhor, na transição monárquica - republica no governo de Nogueira Accioly.

Foi naquela agremiação literária (Padaria Espiritual) onde Antônio Sales escreveu o seu curioso estatuto - manifesto advertindo a qualquer padeiro recitar ao piano ou escrever versos em língua estrangeira e quem escrevesse em folhas perfumadas seriam sujeitos à pena de vaia ou expulsão. O jornal era O PÃO, veículo por onde eles divulgavam seus escritos denominados de “O PÃO DE ESPÍRITO”, arranhando a sociedade burguesa da época.
Faço lembrar um trecho de Adolfo Caminha quando descreveu o perfil social da Padaria na coluna “Sabbatina”, ainda na primeira fase em 1892: “ (...) Somos obrigados a ir, às quintas-feiras e aos domingos, ali ao Passeio Público exibir a melhor de nossas fatiotas e o mais hipócrita e imbecil de nossos sorrisos. (...) Ocupamo-nos de política, mais de uma política torpe, reles, suja, indigna de ser tocada por mãos que calçam luvas de pelica. A literatura e as artes, por assim dizer, são os melhores tônicos para o espírito.”

Lê-se no Artigo 2◦, da Padaria Espiritual que os Padeiros se organizavam de um Padeiro-mor (presidente), dois Forneiros (secretários), um Gaveta (tesoureiro), um Guarda - livros (bibliotecário) e os Amassadores (sócios livres). Sabe-se que o programa de instalação da padaria não se deu no Café Java, mas na Rua Formosa (hoje Barão do Rio Branco). Sales que era inovador, jovem e inquieto pretendia que seus artigos repercutissem lá fora, no Rio de Janeiro. E repercutiu! E com seus 48 artigos “cujo fim é reunir rapazes de letras e artes (...) e fornecer pão de espírito aos sócios em particular e ao povo em grande parte”, fez voltar os olhos dos homens de letra do Rio para aquela agremiação literária e irreverente que em Fortaleza se formava. No 8° artigo diz bem o compromisso dos Padeiros com a literatura, onde se lê: “VIII – As Fornadas (sessões) se realizarão diariamente, à noite, à exepção das quintas-feiras, e nos domingos, ao meio dia.”

Ao lado de Sales, autor de “Aves de Arribação” estava Adolfo Caminha autor de O Bom Crioulo, livro do qual inaugurou o Naturalismo no Brasil, Álvaro Martins, Henrique Jorge e outros de tamanha importância. O Pão circulou tanto durante a primeira fase quanto na segunda num espaço de tempo de 1892 a 1896 somando 36 exemplares. Segundo estudiosos a Padaria Espiritual consolidou a literatura Realista cearense, bem como não podemos deixar de citar, a mola mestra de Rodolfo Teófilo com seu livro A Fome (1890).

Sales foi presidente, ou melhor, padeiro-mor de 1892 a 1894 e dentre outros que tiveram na função de padeiro-mor podemos citar Juvino Guedes, José Calos Junior e Rodolfo Teófilo.

Aos 29 anos, ou seja, em 1897, deixa o Ceará afastando-se quase completamente dos irreverentes poetas da lendária Padaria Espiritual, indo residir no Rio de Janeiro. E entre tantos valores a que chegara às elites literárias nacionais, Antônio Sales vai ao ápice colaborando na fundação da Academia Brasileira de Letras, onde em suas memórias, “Retratos e Lembranças”, publicado em 1938, deixa-nos curiosos ao relembrar formação da ABL a qual participara:

(...) E foi naquela feia e pobre travessa da Rua do Ouvidor que veio ao mundo a Academia Brasileira de Letras. Foi Lucio Mendonça seu verdadeiro criador e pai (...). Devo alertar que ela não foi muito bem recebida com alvoroço, pelo menos por parte de alguns habitantes da roda ilustre (...). Lembro-me de José Veríssimo, pelo menos, não lhe fez bom acolhimento. Machado de Assis, também, fez algumas objeções. Mas Nabuco e Taunay e outros concordaram (...). Restava discutir-se o primeiro grupo de imortais (...).”

O inesquecível Sales viveu plenamente a época de ouro, não só do parnasianismo, mas do realismo e naturalismo brasileiro atuando na literatura por um período de meio século. Em 1920 regressa ao Ceará após vários anos no Rio de Janeiro, trabalhando como jornalista dos periódicos: “Correio da Manhã” e “O País” entre outros jornais da imprensa nacional. Em 1930 participa intensamente de um novo movimento, agora em prol de reorganizar a Academia Cearense de Letras, escolhendo como seu patrono José de Alencar. Sales foi presidente desta mesma entidade de 1930 a 1937.

Em 14 de novembro de 1940, Antônio Sales, é vítima de hipertensão arterial, falece aos 62 anos. Fecharam-se para sempre os olhos do poeta que viram uma Fortaleza que hoje é (para alguns) esquecida, obscura, distante.


Pesquisa:

Retratos e Lembranças, Antônio Sales (1938)
Padaria Espiritual, biscoito fino e travoso, Gleudson Passos (2000)
História do Ceará - Grêmios Literários do Ceará, Sânzio de Azevedo.
Aves de Arribação, Antônio Sales – Academia Cearense de Letras.

Literatura como ato de amor

(trecho do poema de Mario de Sá-Carneiro)





Por José Leite Netto







Nos dias de hoje e sempre a literatura além de ser um estar-se só, pelo fazer literário, é um ato de AMOR. O escritor ou poeta, como queiram, através de sua cosmovisão cria e recria o seu universo de sentimentos. Amor ou Ódio são duas peças primordiais para o nascimento de uma obra, seja em prosa ou em versos.  É necessário que se diga que todo autor carrega em si uma herança cultural obtida através da leitura de outros autores, ou quem sabe, através do inconsciente coletivo, como quer Jung. Não que literatura seja apenas emoção subjetiva. A emoção é o sentimento que suscita uma idéia. É ela quem da ritmo ao poema, reduzindo a palavra a cadência rítmica que necessita o poema ou a prosa. Uma palavra em vão não contém significado intelectual, mas, sim, emotivo. Ninguém diz “Ai” sem ter sentido uma dor ou algo que lhe causasse essa dor. Álvoro de Campos, heterônimo do poeta Fernando Pessoa, soube bem expressar-se num poema intitulado “Opiário”, dedicado ao também poeta português Mario de Sá-Carneiro.







“Eu fingi que estudei engenharia
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avozinha que anda
Pedindo esmola às portas da Alegria (...)”.







A Alegria a que se refere Fernando Pessoa, com certeza alude ao Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdan. A loucura ou Moria (loucura em grego) aqui podemos interpretá-la como alegria. A loucura ou a alegria foram os fios condutores que levaram o jovem poeta (também português) Mario de Sá-Carneiro a vestir um smoking e disparar um tiro no peito. Já na décima quarta estrofe, escreve Pessoa.





Por isso eu tomo ópio. É um remédio
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.





Aqui Fernando Pessoa transfere a dor e a melancolia do amigo Sá-Carneiro ao poema onde, em seu desfecho, pede a Deus que acabe com tudo isso, abra as eclusas e deixe de brincar de Deus com sua alma. É o eterno sofrer da existência humana reduzida a cadência rítmica do poema. O ritmo de uma poesia esta ligado à emoção que é suscitada de uma idéia, até se formar o poema. Então arisco um axioma:



Emoção + Ideia + Poesia= Poema



Sentimos que toda poesia e toda arte é uma entrega e, portanto um ato de amor girando em torno da emoção e da idéia, e tudo necessita de cultura, até porque jamais existirá LITERATURA, sem POESIA, sem EMOÇÃO, sem AMOR.

O que é poesia, o que é o poema e o que é o poeta?


Foto:Stéphane Mallarmé




 Editorial # 0



 Por josé Leite Netto






Cada poema é um achado, a conclusão de uma metáfora surgindo através dos enigmas. A poesia é o espírito do poema, aquele que percebe o espirito nas coisas do mundo, ultrapassa a fronteira do nada e o transforma em poema. O papel sobre a mesa do poeta, disse João Cabral de Melo Neto em seu poema “A Lição de Poesia”, é um fantasma em branco, ou melhor, enquanto não há nele o verbo encarnado no papel. 
Stéphane Mallarmé, poeta que considero o mestre do simbolismo, afirma que a poesia é uma criação cósmica sob o signo da beleza do todo. Eis as metáforas ou a alquimia verbal que transforma o espírito das coisas percebidas em poemas. Cada palavra escolida em “Um Lance de Dados” (1897) inaugura o que conhecemos hoje por poesia concreta. Opá! Mas não foi o próprio Mallarmè quem disse que nomear um objeto seria suprimir parte do gozo do poema que é feito da felicidade de advinharmos pouco a pouco. Portanto, guiemo-nos pela inspiração e pela sonoridade rítmica dos versos de Mallarmè:

Brinde*



Nada, esta espuma, virgem verso
Apenas denotando a taça;
Como longe afogam-se em massa
Sereias em tropa ao inverso.

Naveguemos, ó meus diversos
Amigos, eu já sobre a popa,
Vós a proa que rompe em pompa
As vagas de trovões adversos.

Empenho-me em pura voragem
Sem mesmo temer a arfagem
A, de pé, este brinde erguer:

Solitude, recife, estrela,
A não importa o que valer
O alvo desvelo em nossa vela.

De pé, erguendo uma taça em torno de uma mesa, entre amigos, disse Mallarmè este soneto com 51 anos de idade em 15 de fevereiro de 1893. Posso afirmar que concordo com os críticos que dizem que “O Brinde” é um dos mais belos poemas que fez e faz de Mallarmè o maestro da poesia. Sobre este maestro do simbolismo escreveu Ricardo Reis – heterónimo de Fernando Pessoa: “A poesia é uma música que se faz com idéias e por isso com palavras.” Teria Pessoa se influenciado pela inquietação e pela concepção de poesia como música, assim como afirmava Mallarmé? Para José Augusto Seabra, tradutor da seleta “Stéphane Mallarmé, Poemas Lidos por Fernando Pessoa, nos diz: “ Dessa forma o poeta marca bem a identidade e a diferença que aproximam e separam, semioticamente, a poesia e a música.” Concordo.

Sei que as dificuldades são diversas para uma profunda compreenção da poesia mallarmeana e que o título é pretencioso, portanto deixo aqui estas poucas palavras esperando ter agradado alguém.








* Brinde: poema traduzido por José Lino Grünewald (poemas de Stéphane Mallarmé – editora nova fronteira)