ensaios

As torres de marfim de Renata Holanda







Por José Leite Netto

Olhos escorem cores numa tez gravada à tela e se diluem no hemisfério de Signos compondo árvores genealógicas. Máscaras, seres, tucanos dialogam com o universo colorido: forma-se, deforma-se, escondem-se e reaparecem, de relance, na fronte de um felino. A harmonia azul desliza (suave) na pele-ouro de uma serpente, ou seios que se dissipam e escorem-líquidos e soltos na cor rubra através do obscuro e forma a vida. Porque tudo é vivo no universo multicor de Renata Holanda, sua inquietação ultrapassa a tela e toca a argila e mais seres surgem esculpindo a imagem para o espectador mais atento, formas ancestrais saltam do inconsciente arremessadas à atualidade com suas instalações e objetos. A dualidade mística através do foco nos indaga: O que se esconde na alma do artista diante do espetáculo? Ou em seus “Caminhantes Caudalosos Tardios”, congelando o tempo que não se foi, traspassando por ela. E no reflexo do retrovisor, a transparência lúdica da alma dos animais. No hemisfério surreal, na poética vivenciada com os ciganos, em figueiras arregaçadas por arquitetos de horrores pós-morte, torres de marfim, meninas de tranças, cavalos de balanço, centauros marsupiais tudo através da confluência de sua poética que se inicia feito meninos jumbos, perdidos derramando em lágrimas-nanquim.


torres  de marfim



líqüidos desejos diluem gris de cor
por entre dedos e tocam o infinito
e trás de mim enlouquece-me um rito
gritos de imagens e dor

torres de água a babel dos teus olhos fito
anjos de pedra a flor da pele marfim
sonhos que me beijam azul em mim
gritos de imagens e flor

centauros alados sentados esculpem
mulheres de barro cavalos e crinas
retorcidas a ferro e fogo e cismas
gritos de imagens e horror

gritos de imagens
esperando
gritos de imagens
e
amor.


*Torres de Marfim, poema escrito sobre uma seqüência de obras da Artista Renata Holanda.

Blog: http://holandarenata.blogspot.com/







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ANTÔNIO SALES, O INESQUECÍVEL FUNDADOR DA PADARIA ESPIRITUAL





 
“Na sala, uma moça esguia
recorta papeis de cor,
fazendo uma ninharia;
dorme um cão no corredor.
e embaixo um nédio gatinho
Olha para o passarinho
como quem diz: - Si eu te apanho!...”

 (Antônio Sales)


Por josé leite netto




Poeta, dramaturgo, jornalista, cearense. Antônio Sales nasceu na então povoação praieira de Parazinho, hoje Paracuru. Em 1880 já participava com seus escritos em alguns periódicos da capital cearense como “A Avenida”, “A Quinzena”, “O Domingo”, entre outros. Sem sombra de dúvidas, Antônio Sales, mais tarde, se tornaria um dos maiores nomes da literatura brasileira. Só para não deixar de citar um de seus confrades da época, Machado de Assis, o autor da perdurável obra Memórias Póstumas de Brás Cubas, etc. Ainda moço Sales desfrutara do prestígio de freqüentar a alta intelectualidade cearense, como por exemplo, O Clube Literário, que segundo o professor Sânzio de Azevedo, em nota sobre os Grêmios Literários do Ceará, afirma que o poeta por esses tempos “mal se iniciará na literatura”.

De família humilde, Sales chegara a Fortaleza nos idos de 1884 com apenas 16 anos, na época garantiu seu sustento como caixeiro viajante de casas comerciais, às quais lhes suprimiam as poucas horas ao lazer da leitura, fazendo-se, com muito esforço, autodidata. A poesia de Sales cedo surgiu com “Versos Diversos” (1888) e “Trovas do Norte” (1891). Em 30 de maio de 1892, no Café Java, de Mané Coco, na Praça do Ferreira, Antônio Sales idealiza a Padaria Espiritual que se destacou por sua irreverência postulando a Semana de Arte Moderna de 1922. Curiosamente cada Padeiro se alto denominavam com os respectivos pseudônimos ou “nome guerra”, como por exemplo: Antônio Sales (“Moacir Jurema), Adolfo Caminha (Félix Guanabariano), Rodolfo Teófilo (Marcos Serrano), etc. Era a Padaria Espiritual na sua primeira fase com direito a deboches e gargalhadas que mais tarde, no século XX ganharia, a cidade de Fortaleza o epíteto de “Ceará Moleque” com direito a vaia ao sol e um certo Bode Ioiô que segundo contam era bom bebedor de cachaça e apreciador de boa poesia, além de ter sido eleito vereador desta mesma cidade. Dentre os intelectuais que compunham a primeira fase da Padaria estavam: “Ulisses Bezerra, Sabino Batista, Tibúrcio de Farias, Álvaro Martins, Temístocles Machado. Lopes Filho e Antônio Sales”. Já na segunda fase da Padaria Espiritual, Os Padeiros, voltavam suas idéias às questões políticas e sociais sacudindo o âmago dos literatos nos primeiros anos do golpe da Republica, ou melhor, na transição monárquica - republica no governo de Nogueira Accioly.

Foi naquela agremiação literária (Padaria Espiritual) onde Antônio Sales escreveu o seu curioso estatuto - manifesto advertindo a qualquer padeiro recitar ao piano ou escrever versos em língua estrangeira e quem escrevesse em folhas perfumadas seriam sujeitos à pena de vaia ou expulsão. O jornal era O PÃO, veículo por onde eles divulgavam seus escritos denominados de “O PÃO DE ESPÍRITO”, arranhando a sociedade burguesa da época.
Faço lembrar um trecho de Adolfo Caminha quando descreveu o perfil social da Padaria na coluna “Sabbatina”, ainda na primeira fase em 1892: “ (...) Somos obrigados a ir, às quintas-feiras e aos domingos, ali ao Passeio Público exibir a melhor de nossas fatiotas e o mais hipócrita e imbecil de nossos sorrisos. (...) Ocupamo-nos de política, mais de uma política torpe, reles, suja, indigna de ser tocada por mãos que calçam luvas de pelica. A literatura e as artes, por assim dizer, são os melhores tônicos para o espírito.”

Lê-se no Artigo 2◦, da Padaria Espiritual que os Padeiros se organizavam de um Padeiro-mor (presidente), dois Forneiros (secretários), um Gaveta (tesoureiro), um Guarda - livros (bibliotecário) e os Amassadores (sócios livres). Sabe-se que o programa de instalação da padaria não se deu no Café Java, mas na Rua Formosa (hoje Barão do Rio Branco). Sales que era inovador, jovem e inquieto pretendia que seus artigos repercutissem lá fora, no Rio de Janeiro. E repercutiu! E com seus 48 artigos “cujo fim é reunir rapazes de letras e artes (...) e fornecer pão de espírito aos sócios em particular e ao povo em grande parte”, fez voltar os olhos dos homens de letra do Rio para aquela agremiação literária e irreverente que em Fortaleza se formava. No 8° artigo diz bem o compromisso dos Padeiros com a literatura, onde se lê: “VIII – As Fornadas (sessões) se realizarão diariamente, à noite, à exepção das quintas-feiras, e nos domingos, ao meio dia.”

Ao lado de Sales, autor de “Aves de Arribação” estava Adolfo Caminha autor de O Bom Crioulo, livro do qual inaugurou o Naturalismo no Brasil, Álvaro Martins, Henrique Jorge e outros de tamanha importância. O Pão circulou tanto durante a primeira fase quanto na segunda num espaço de tempo de 1892 a 1896 somando 36 exemplares. Segundo estudiosos a Padaria Espiritual consolidou a literatura Realista cearense, bem como não podemos deixar de citar, a mola mestra de Rodolfo Teófilo com seu livro A Fome (1890).

Sales foi presidente, ou melhor, padeiro-mor de 1892 a 1894 e dentre outros que tiveram na função de padeiro-mor podemos citar Juvino Guedes, José Calos Junior e Rodolfo Teófilo.

Aos 29 anos, ou seja, em 1897, deixa o Ceará afastando-se quase completamente dos irreverentes poetas da lendária Padaria Espiritual, indo residir no Rio de Janeiro. E entre tantos valores a que chegara às elites literárias nacionais, Antônio Sales vai ao ápice colaborando na fundação da Academia Brasileira de Letras, onde em suas memórias, “Retratos e Lembranças”, publicado em 1938, deixa-nos curiosos ao relembrar formação da ABL a qual participara:

(...) E foi naquela feia e pobre travessa da Rua do Ouvidor que veio ao mundo a Academia Brasileira de Letras. Foi Lucio Mendonça seu verdadeiro criador e pai (...). Devo alertar que ela não foi muito bem recebida com alvoroço, pelo menos por parte de alguns habitantes da roda ilustre (...). Lembro-me de José Veríssimo, pelo menos, não lhe fez bom acolhimento. Machado de Assis, também, fez algumas objeções. Mas Nabuco e Taunay e outros concordaram (...). Restava discutir-se o primeiro grupo de imortais (...).”

O inesquecível Sales viveu plenamente a época de ouro, não só do parnasianismo, mas do realismo e naturalismo brasileiro atuando na literatura por um período de meio século. Em 1920 regressa ao Ceará após vários anos no Rio de Janeiro, trabalhando como jornalista dos periódicos: “Correio da Manhã” e “O País” entre outros jornais da imprensa nacional. Em 1930 participa intensamente de um novo movimento, agora em prol de reorganizar a Academia Cearense de Letras, escolhendo como seu patrono José de Alencar. Sales foi presidente desta mesma entidade de 1930 a 1937.

Em 14 de novembro de 1940, Antônio Sales, é vítima de hipertensão arterial, falece aos 62 anos. Fecharam-se para sempre os olhos do poeta que viram uma Fortaleza que hoje é (para alguns) esquecida, obscura, distante.


Pesquisa:

Retratos e Lembranças, Antônio Sales (1938)
Padaria Espiritual, biscoito fino e travoso, Gleudson Passos (2000)
História do Ceará - Grêmios Literários do Ceará, Sânzio de Azevedo.
Aves de Arribação, Antônio Sales – Academia Cearense de Letras.


____________________História dos Subúrbios


Por José Leite Netto



“A sexologia concorda em reconhecer que o Amor tomado como paixão desenfreada, é como vulcão que tudo queima e consome: um abismo que devora a honra, fortuna e saúde”.
Julius Evola



Retomo a História dos Subúrbios lendo D. Casumurro com ânsia de encontrar Capitu, semi-nua. Calma! Não tenha você conclusões precipitadas disso ou daquilo que aqui serão escritas. Capitu, a cigana dissimulada do velho Machado, só habitará na cabeça psicótica de Bentinho, onde o próprio protagonista da história é vítima da tirania do seu Eros ou se assim preferir, retornarei ao Banquete onde Platão afirma que só os “amantes consentem uma virtude à qual nem mesmo um escravo queria sujeitar-se”. Nesse caso Bentinho corresponde às idéias do filósofo que, a meu ver, é arrastado pelos olhos de ressaca de Capitu com os ímpetos de uma onda que o escraviza em sua própria transcendência, amarga e ciumenta.

“Escapei ao segredo, escapei a minha mãe não indo ao quarto dela, mas não escapei a mim mesmo. Corri ao meu quarto, e entrei atrás de mim. Eu falava-me, eu perseguia-me, eu atirava-me à cama e rolava comigo, e chorava, e abafava os soluços com a ponta do lençol. Jurei não ver mais Capitu aquela tarde e fazer-me padre (...). A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço, enterrá-las bem, até ver-lhe sair a vida com sangue(...).” Capít. 75 – o Desespero

Tenho dito que há uma nuança que separa o Amor do Ódio. Um fio transparente que Schopenharuer lançou no mundo moderno marcando o século XIX com o seu pessimismo, por onde posso afirmar que o pensamento Amor arruína o ser e esse ser é devastado pelo próprio EU. Há no amor de Bentinho por Capitu um desejo de morte, um desejo de sangue. O amor nada mais é do que uma outra versão do elemento ódio, que em-si pede “atenção” e por-si se atraem – retraem.

Na palavra sangue há o sentido da vida e o sentido da vida é a mulher, o desejo, o filho, a vida perpétua. Bentinho reúne em si toda ânsia do seu objeto de desejo – Capitu. Escobar, o muro que prefiro chamar de desejo de ódio ou ciúme. A igreja, o arquétipo de piedade e sinceridade em que afirma que “Deus protegia os sinceros; uma vez que eu só podia servi-lo no mundo, aí me cumpria ficar.” Ficar no mundo representa elevar todo o amor para Capitu e cumpre observar um Bentinho psicologicamente atormentado por dois paralelos: um a fé, o outro o desejo de amor, pois Capitu, para Bentinho, toma o símbolo amor (amor = Capitu).

Mas retorno ao subúrbio desejando uma terra bem leve sem os ímpetos de uma vaga marinha, mas com os olhos de ressaca de ver passar a vida como a água a escorre pelos dedos, o amor e o ódio nos buscam, caminham passo a passo com uma Capitu com sinais de fadiga e comoção ficando sempre outra, uma mocinha de sempre não menos espantada onde Machado dilui Goethe no sentimento de infância onde nem mesmo a caprichosa que se chama História não o fez esquecer o seu primeiro amor, aquela Capitu de olhos de cigana dissimulada.

“(...) Jesus, filho de Sinach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes dar-me-ia, como no seu cap. IX, vers.I: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com malícia.(...)”

E vasculhando alguns livros encontrei uma dissimilada apenas na mente de Bentinho, um desejo de carne e outro de alma e um gênio chamado Machado de Assis. Uma outra foi a interrogação do ciúme, do ódio, do amor e que A terra lhes seja Leve! Voltemos à História dos Subúrbios?

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