ensaios

História dos Subúrbios


Por José Leite Netto



“A sexologia concorda em reconhecer que o Amor tomado como paixão desenfreada, é como vulcão que tudo queima e consome: um abismo que devora a honra, fortuna e saúde”.
Julius Evola



Retomo a História dos Subúrbios lendo D. Casumurro com ânsia de encontrar Capitu, semi-nua. Calma! Não tenha você conclusões precipitadas disso ou daquilo que aqui serão escritas. Capitu, a cigana dissimulada do velho Machado, só habitará na cabeça psicótica de Bentinho, onde o próprio protagonista da história é vítima da tirania do seu Eros ou se assim preferir, retornarei ao Banquete onde Platão afirma que só os “amantes consentem uma virtude à qual nem mesmo um escravo queria sujeitar-se”. Nesse caso Bentinho corresponde às idéias do filósofo que, a meu ver, é arrastado pelos olhos de ressaca de Capitu com os ímpetos de uma onda que o escraviza em sua própria transcendência, amarga e ciumenta.

“Escapei ao segredo, escapei a minha mãe não indo ao quarto dela, mas não escapei a mim mesmo. Corri ao meu quarto, e entrei atrás de mim. Eu falava-me, eu perseguia-me, eu atirava-me à cama e rolava comigo, e chorava, e abafava os soluços com a ponta do lençol. Jurei não ver mais Capitu aquela tarde e fazer-me padre (...). A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço, enterrá-las bem, até ver-lhe sair a vida com sangue(...).” Capít. 75 – o Desespero

Tenho dito que há uma nuança que separa o Amor do Ódio. Um fio transparente que Schopenharuer lançou no mundo moderno marcando o século XIX com o seu pessimismo, por onde posso afirmar que o pensamento Amor arruína o ser e esse ser é devastado pelo próprio EU. Há no amor de Bentinho por Capitu um desejo de morte, um desejo de sangue. O amor nada mais é do que uma outra versão do elemento ódio, que em-si pede “atenção” e por-si se atraem – retraem.

Na palavra sangue há o sentido da vida e o sentido da vida é a mulher, o desejo, o filho, a vida perpétua. Bentinho reúne em si toda ânsia do seu objeto de desejo – Capitu. Escobar, o muro que prefiro chamar de desejo de ódio ou ciúme. A igreja, o arquétipo de piedade e sinceridade em que afirma que “Deus protegia os sinceros; uma vez que eu só podia servi-lo no mundo, aí me cumpria ficar.” Ficar no mundo representa elevar todo o amor para Capitu e cumpre observar um Bentinho psicologicamente atormentado por dois paralelos: um a fé, o outro o desejo de amor, pois Capitu, para Bentinho, toma o símbolo amor (amor = Capitu).

Mas retorno ao subúrbio desejando uma terra bem leve sem os ímpetos de uma vaga marinha, mas com os olhos de ressaca de ver passar a vida como a água a escorre pelos dedos, o amor e o ódio nos buscam, caminham passo a passo com uma Capitu com sinais de fadiga e comoção ficando sempre outra, uma mocinha de sempre não menos espantada onde Machado dilui Goethe no sentimento de infância onde nem mesmo a caprichosa que se chama História não o fez esquecer o seu primeiro amor, aquela Capitu de olhos de cigana dissimulada.

“(...) Jesus, filho de Sinach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes dar-me-ia, como no seu cap. IX, vers.I: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com malícia.(...)”

E vasculhando alguns livros encontrei uma dissimilada apenas na mente de Bentinho, um desejo de carne e outro de alma e um gênio chamado Machado de Assis. Uma outra foi a interrogação do ciúme, do ódio, do amor e que A terra lhes seja Leve! Voltemos à História dos Subúrbios?

 ....




Ritmo e Poesia
Por josé leite netto



Para falarmos do ritmo na poesia, a princípio, teremos que primeiro falar em signo poético. Mas, o que é um signo poético? O signo é o estado virtual das palavras, a força das cordas vocálicas para transmitir o som das palavras, pois o que antes era som, saído do corpo, agora, fez-se palavras verbalizadas, adjetivadas, substantivadas, etc.
Alfredo Bosi, em O ser e o Tempo da Poesia, nos explica que “até mesmo os símbolos visuais que, pela sua matéria, deveriam ser mais e-videntes do que sonoros, podem ser interpretados conforme o contexto”. Portanto quando descrevemos -, um pássaro morto sob o sol egípcio - aludimos ao mito tebano de o deus sol Amon-Ra que nos remete a vida ou a prosperidade enquanto que o símbolo representado pelo o Pássaro Morto a de nos aludir à peste que suscita a desgraça, enfim a morte. E é nessa inferência do processo de simbolização dos mitos ou das coisas que nos circundam que estão as imagens sonoras onde caberá ao leitor a interpretação desses “chamas” para poder desvendá-las uma a uma. Em síntese, é bom que se lembre que, para o lingüista Ferdinand de Saussure, “os símbolos são as palavras da língua”.
Ao meu ver a potência rítmica na poesia esta nas alternâncias dos signos imagéticos da palavra e na acentuação melódica destes signos. A aliteração não deixa de ser um sopro, senão ocasional, para repousar inquieta no papel com um jogo de palavras em harmonias sonoras e conscientes nas suas alternâncias silábicas.
Portanto, para darmos ritmo ao poema teremos que, primeiro, buscar uma harmonia fônica que compreende uma rima, aliteração ou assonância. Isso não se trata apenas da poesia moderna, Saussure já havia pesquisado nos versos saturninos onde em suas leituras aplicou-se em decifras fonemas e não letras que, portanto, também não se limitou em redistribuir aqueles signos visuais. Foi ao escutar um ou dois versos saturninos latinos que Ferdinand de Saussure ouviu levantar-se os fonemas principais daqueles versos, separando-os por elementos fonéticos indiferentes.
Citemos pois uma das principais revoluções do modernismo em Portugal que foi à poesia de Fernando Pessoa, tomemos como exemplo um de seus mais belos e aliterantes poemas intitulado Hiemal:

Balas de uma outra terra, aliadas
Às saudades das fadas, amadas por gnomos idos,
Retinem lívidas aos ouvidos
Dos luares das altas noites aladas...
Pelos canais barcar erradas
Segredam-se rumos descritos...

E tresloucadas ou casadas com o som das baladas,
As fadas são belas, e as estrelas
São delas... Ei-las aleadas...

E são fumos os rumos das barcas sonhadas,
Nos canais fatais iguais de erradas,
As barcas parcas das fadas,
Das fadas aladas e hiemais
E caladas...

Toadas afastadas, irreais, de baladas...
Ais...

Nota-se que Fernando Pessoa procurou trabalhar os Ss dando um ritmo simbólico e metafórico em seu poema, como em: Balas, aliadas, saudades, fadas, gnomos, idos, e finalizando em uma síntese rápida, direta e intimista - Ais... São fortes e sonoras as acentuações dos versos: “Retinem lívidas aos ouvidos/ Dos luares das altas noites aladas... /Pelos canais barcar erradas/ Segredam-se rumos descritos...” E, com um olhar ao infinito, indago: Que outras terras são estas a que se refere o poeta do mistério?... Diria eu que são do reino da musicalidade versificada e alternada, pois esse “duplo cano de escapasão” rítmico e assimétrico dos signos verbais é universal da linguagem poética, mas o metro não, como em: “As barcas parcas das fadas, / Das fadas aladas e hiemais/ E caladas...” Nestes versos pessoanos a assimetria do metro natural varia de 8 a 12 silabas alternadas e aliteradas em toda a estrutura central do poema. É nítida e constante as silabas de 8 a 10 onde há uma síntese precisa das duas últimas estrofes, desfechando e repetindo as antepenúltimas silabas com o mesmo número silábico do segundo verso - 12 e radicalizando com uma só silaba, “Ais”. Todas terminadas em Ss, da primeira a última, marcando, assim, a cadência melódica que necessita o poema.
“Existem muitas entradas para o estudo de uma língua como nos diz Bossi, uma delas é o estudo dos ritmos”. No entanto não é necessário para o poema utilizarmos apenas de palavras acentuadas ou silabas fortes ou fracas. Mas é no jogo com estas palavras que creio que daremos ao poema uma musicalidade frasal em que muitas vezes não consigo ouvir nos poetas modernos que quase sempre se perdem entre a prosa e a poesia, onde sabemos que há um abismo imenso.
Citemos, então, Frederico Garcia Lorca num de seus mais belos e expressivos poemas onde ele utilizou-se 52 versos e 24 refrões para acentuar a morte de seu amigo toureiro Ignácio Sáchez Mejías, no poema intitulado “A captura e a Morte”.(trechos)

“Às cinco horas da tarde.
Eram cinco horas da tarde em ponto.
Um menino trouxe o lençol branco
às cinco horas da tarde.
O mais era a morte e apenas a morte
às cinco horas da tarde.
(...)
quando o suor de neve foi chegando
às cinco horas da tarde.
Quando o iodo se cobriu a praça
às cinco horas da tarde.
A morte botou ovos na ferida
às cinco horas da tarde.
às cinco horas da tarde.
às cinco horas em ponto da tarde.”

Vê-se nitidamente um grito de revolta enfatizando que mataram o seu melhor amigo. Portanto o ritmo, aqui, serviu para denunciar como se dissesse, e disse, mataram meu amigo às cinco horas da tarde. O ritmo destes 52 versos ecoam até os dias de hoje.

0 comentários: