crônicas

ASSALTO EM SABIAGUABA

por José leite netto




A manhã de domingo amanheceu de arma em punho. Três rebentos filhos de uma mãe sem nome anunciaram o assalto enquanto contemplávamos o verde mar da Praia de Sabiaguaba lutar contra as pedras, a poucos metros da Barraca Anfíbios. “Não tem violência não. Só quero a grana e os celulares.” Disse um deles de arma na mão com um olhar ameaçador enquanto o outro se mantinha, na posição de sentinela, e nos obrigava a sentar e não correr, porém o terceiro, mais tagarela, parecia-nos menos experiente vasculhando, egocentricamente, nossas bolsas e carteiras. Levando-nos todo o nosso dinheiro e celulares.
Devo crer ou até mesmo usar, no sentido oposto ao significado, a célebre frase de Sartre: “Estamos condenados à liberdade”. Pois tudo nos limita nesta sociedade fatídica e feroz. De um lado está a polícia sempre com seus argumentos “dentro da lei”, do outro os bandidos de arma em punho, ameaçando e violentando psiquicamente ou fisicamente o cidadão desprovido de qualquer segurança e da paz exterior que nos é dada pelo mar e pelos ventos que sopram na então e tranqüila Praia de Sabiaguaba. É nesta selva de pedra e mar onde vive o cidadão que, ao sair para um passeio, está condenado a não liberdade, imposta, a ferro e a fogo, por bandidos astuciosos e armados e por policiais que sem o menor interesse pelo caso só souberam tomar nossas informações para depois cruzarem as pernas para um bate-papo, sem compromisso, com o proprietário da barraca que, diga-se de passagem, nos cedeu o seu celular para que acionássemos os policiais. Acionamos. E é realmente triste sabermos que não podemos contar com os homens de farda.
E enquanto tudo é risível ao tempo em que dramático na cidade de Fortaleza que há anos espera por um metrô, espera também por uma ponte que ligue à Praia de Sabiaguaba à Paia do Futuro. A Sabi, como é popularmente chamada, é ainda a única e a última praia de Fortaleza que preserva (não se sabe até quando) um manguezal e uma mata atlântica na desembocadura do rio Cocó, próximo da lagoa da Precabura. Bela, verde e cheia de pedras a Praia de Sabiaguaba que fora imortalizada no raconto de Gustavo Barroso “Os Noruegueses do Sabiaguaba” pede por mais segurança e por maior empenho das autoridades no patrulhamento da área e na preservação do seu rio e manguezal.








Ouvindo Chico Buarque



por José Leite Netto


Deixei sobre a noite os meus olhos de mulher nua. A fome e a trama que se daria ao meio-dia. Eu ouvindo Chico e comendo o último pedaço de doce, preparando o almoço. Ela catando lixo. Outro pedaço, sendo esse o da história, se dá como um papel rasgado em minha memória, diz que a fome e a seca são a cultura hostil do povo Nordestino. Triste passado sobrevivendo nas ruas. Mas gosto de bater a máquina como quem abre a caixa de Pandora e redescobre nas coisas simples e tristes da vida uma razão pra não chorar.

Escrevo. Escrevo para que nada tenha a ver com o que escuto, se ouço Chico enquanto a vejo da janela, e ela cata lata e resto de comida. E eu com um projeto na cabeça, sem grana, calça desbotada, minha mente a mil e ela... Mas a dor da gente, como nos fala a música, não sei no jornal, talvez a catadora chamasse Joana. Assim combinaria na composição de um soneto. Tento rabiscá-lo. Ruim, achei por bem rasgá-lo. É o poema é tão ruim quanto a Quadrilha que fala Drummond que não nos fala em sua letra. Quadrilha. Somos todos governados por uma quadrilha de paletó e gravata. Quanto ao poema do velho Carlos Drummond apenas nos diz o que é banal e poético na ponta da língua: “João amava Tereza que amava Raimundo que amava Maria que amava Lili que não amava ninguém.” O poema, mas o escutem baixinho, diz coisas que o poema quer dizer e que o coração de quem lê não sente ou não ousa parodiar. Talvez eu esteja errado.

O sentimento está sempre à retaguarda, está sempre à esquiva da serpe daquilo que se vê por traz do vidro, a luminosidade transcendente do ser, a confluência da música ou o instrumento melódico da fome. Ela ainda catava e agora comia o lixo. Ela e o lixo, urubu de gente catando migalhas das sobras do comício que aquele político ofertou na Praça. Eu a reflexão de um sentimento que nos assola. Ela de dedo socado no nariz, as mão sujas, a mente torpe sob uma garrafa de cana. Parecia bêbada como a política do país. O que sabia? De onde vinha? Para onde ia? Cheguei a imaginar: talvez no passado fosse uma mulher muito rica, perdera tudo ou nascera em berço pobre e esplêndido. Esplêndido. Disse imaginando-a dizer: “Eu sou brasileira – esplêndido! Meus cabelos sujos, minhas as roupas rotas, meus pés no chão – Pátria amada é a P. que partiu de volta pra Portugal”. Detalhe é que ela transportava em seu carrinho de mão uma criança. Os olhos negros da criança me fez lembrar os azuis olhos de um certo menino que morrera crucificado. E eu ouvia Chico, queria mesmo que o compositor pudesse escutar essa prosa sem jeito de samba. Mas a tristeza não presta. Dizia a outra estrofe, em outra música. E que minha alma exploda! Mas a velha parecia beijar o chão como se vivesse de brisa. Maltrapilha, maltratada. Cabeça erguida – brasileira. Mas foi bonita a festa pá, ficamos aqui contentes vendo tudo pela TV até que eu chute a gol e tudo acabe. Tive vontade de correr até ela e pedir para lavar toda a sua roupa suja, seria a minha forma de pedir minhas desculpas pelo meu voto errado. Pedir que ela chutasse o balde, quebrasse todos os vidros dos carros,  chamasse por seu marido, o Pedro Pedreira, que é certo a esperava em um trem a caminho de sua cidade. Enquanto o trem não vem, não vem e se vier que venha e não volte nunca mais.

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