contos





manuscrito perdido de guimarães rosa: o hospício de Riobaldo.


Por José leite neto

            João Rosa já havia desbravado o sertão nas veredas da língua. Riobaldo era como um carro-de-boi por dentro do homem, dentro do seu próprio demônio, redemoinho por dentro de si. Rindo-se com máscara de cachorro doido como se arrebitasse o rabo na certeza de um tiro, refugiando-se por dentro de sua própria mata. Pois se alguém lhe aparecia com cara de gente, tinha cara do cão: era o demônio, Cérbero errante do sertão. Varando peito de homem com tiro certeiro, e gritava para seu interlocutor oculto, acuado no meio da caatinga imaginária: Joãozito... Joãozito – há um tal de Simplício que tu criaste – dizem as más línguas, que ele cria um diabinho na garrafa.
            O Grande Sertão estava cravado, com fervor, nas ilusões enigmáticas de Riobaldo. Preso no Hospital dos Alienados, no Asilo de sua mente repetindo amiúde como se João Rosa ali estivesse: - “O diabo na rua, no meio do redemunho...”Joãozito - O diabo na rua, no meio do redemunho. “O diabo vige dentro do homem, solto, é que não tem diabo nenhum”.  Era peçonha de doido, era a vingança de Diadorim nos confins imaginário de João Rosa.
Apos ter Riobaldo largado a vida de jagunço e muito após a morte de seu criador , quando dada à morte de sua esposa Otacília, Riobaldo endoidece, é preso e trancafiado qual diabo na garrafa, perambula pelo o sertão dos Gerais e da Bahia  vagueando nuvens entre o céu e o inferno. Chega Riobaldo, no Ceará e na capital é trancafiado, no Hospital dos Alienados, gritando por Diadorim reclamando vida ao seu senhor: João Rosa.
Este manuscrito perdido foi encontrado nas entrelinhas do imaginário entre o galope dos cavalos e som triste dos carros-de-boi, rangendo e pedindo água a coisa nenhuma - Nonada - e reclamando a Joãozito, Riobaldo dizia: “Amável o senhor me ouviu, minha ideia confirmou: que Diabo não existe.” Pois não? Sussurrou a sua ilusão.  “Compadre Quelemém” – “o Diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é o homem.” 


__________________Caleidoscópio de Sol











quero-me em desejos numa noite que passa por mim. E ao vento e sobreviver sem trégua às margens de tudo que é o meu passado, saqueado por vezes pela história, obcecado por tudo. meia-noite.

apreendo-me. Como passa o tempo pelos dedos sobre os acordes. Violo(-me) aos olhos de Mallarmé sobre o manto de Papus, Deus está Nu Sol sobre tua cabeça. O bruxo nos observa.

à noite me vem em mantos e soluços. Perco-me! Quero-me feito de mar, morri no mar. Amar por certo o que é errado, beber à noite. Os meus olhos nuvens ao cair da tardinha, entardeço.Vem o pôr-do-sol. A Ponte Metálica é um barquinho enferrujado no fim para o começo do horizonte. E some, e some, e some...

a noite é feito aquela tatuagem, Ombro a ombro. O Dragão do Mar em sua jangada a velejar sobre as ondas, e as ondas a baterem de encontro às pedras, nas longarinas de Iracema. Os olhos da noite (por vezes) me dão sinais de fadiga, fala comigo, meus olhos colhem as imagens das migalhas de pipoca deixadas (inocentes) sobre a Ponte. À beira-mar um pescador reinventa palavras, e retira dela à rede e o peixe que está estampado no quadro à venda. Antigo sentido seria uma tradução da antiga Praia do Peixe, hoje uma concepção colorida dos meus olhos através de um caleidoscópio de sol, a girar, a girar pelo mundo.

 o sol já acalmou a praia com suas lágrimas de fogo. E a lua, anciã a brilhar e a girar como giram os moinhos, aqueles brancos fantasmas que ouvem e ecoam o som do mar.




Por José Leite Netto















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