Caleidoscópio de Sol
quero-me em desejos numa noite que passa por mim. E ao vento e sobreviver sem trégua às margens de tudo que é o meu passado, saqueado por vezes pela história, obcecado por tudo. meia-noite.
apreendo-me. Como passa o tempo pelos dedos sobre os acordes. Violo(-me) aos olhos de Mallarmé sobre o manto de Papus, Deus está Nu Sol sobre tua cabeça. O bruxo nos observa.
à noite me vem em mantos e soluços. Perco-me! Quero-me feito de mar, morri no mar. Amar por certo o que é errado, beber à noite. Os meus olhos nuvens ao cair da tardinha, entardeço.Vem o pôr-do-sol. A Ponte Metálica é um barquinho enferrujado no fim para o começo do horizonte. E some, e some, e some...
a noite é feito aquela tatuagem, Ombro a ombro. O Dragão do Mar em sua jangada a velejar sobre as ondas, e as ondas a baterem de encontro às pedras, nas longarinas de Iracema. Os olhos da noite (por vezes) me dão sinais de fadiga, fala comigo, meus olhos colhem as imagens das migalhas de pipoca deixadas (inocentes) sobre a Ponte. À beira-mar um pescador reinventa palavras, e retira dela à rede e o peixe que está estampado no quadro à venda. Antigo sentido seria uma tradução da antiga Praia do Peixe, hoje uma concepção colorida dos meus olhos através de um caleidoscópio de sol, a girar, a girar pelo mundo.
o sol já acalmou a praia com suas lágrimas de fogo. E a lua, anciã a brilhar e a girar como giram os moinhos, aqueles brancos fantasmas que ouvem e ecoam o som do mar.
Por José Leite Netto
***
entre cupins e Mallarmé
josé leite netto
10h.
O sofá já havia gasto. A tinta que sustentava meu coração aos poucos caia. E despencando de um sonho, entre o ranger e outro da rede, lendo Mallarmé, deixo-me entre cupins e uma multidão de verbos espalhados pela sala. Praias e Várzeas esculpiam a eloqüência líqüida de areia manchada de sangue no tapete a se retorcer entre Quixotes e moinhos, enquanto sopro poeiras, versos e gaitas. Johnny Winter e Floyd se mantinham musicais, Jobim também toquinho tocou por aqui. Rener Maria Rilke aconselha-me a não escrever versos, o silêncio talvez se vestisse ao manto de Mallarmé. Silêncio! O cupim roedor é tocador de flauta.
“Não posso com o teu pó nas prateleiras.” Disse eu enrolando um latim na língua do inseto. E continuando com o dedo em riste...
“Se cada cupim soubesse do amor que tenho por esses objetos de Platão e Sade... com seus mistérios de Sintra, Vinicius e sua menina com uma flor, roterdãs com sua loucura disfarçada e medieva... todos vieram a mim, ouviu! Cada um com seu lugar na estante, na minha pequena história particular.”
Mas o safado teimou a fumar ópio com Baudelaire e Pessoa. “Caminhemos de mãos dadas. É tempo de mortos faladores” espalhados pelo chão e minha mãe a gritar:
“Arruma tudo, o sofá chega amanhã.”
Ainda bem que ela foi ao barzinho. Disse-me enquanto o cupim me falava afiado:
“Ou tu me sopras ou te devoro.”
Mas a Desplanura por vezes é o Leme e o sonho de quem toca pífano no pensamento e pensa em ser uma Metáfora de Sol a se estirar na cadeira. As palavras podem ser rudes na Guerra e Paz de uma casa sendo pintada, enquanto o morador se vê às avessas mergulhado em pinceis e tintas. Neste momento, entre rodo e latas, o cupim passou correndo e juntou-se a barata do senhor Kafka para uma partida de baralho com o gnomo do jardim. Verdade é que eu queria uma régua para medir quilômetros de Aurélios no universo recriado de palavras empoeiradas.
“Trouxeste a chave?” Perguntei.
”Não trouxe nada! E não entendo nada e pronto!”
Gritou o velho pintor de parede, com sua barba de Max, diluindo cores em busca de um trocado. Enquanto eu fingia ser cata-vento fazendo cachos.

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